sábado, 9 de setembro de 2017

Astrid Cabral

Astrid Cabral Félix de Souza

Rio Negro
contigo arrastas ao abismo
invisível carga de risos de meninos

1936, Nasce no dia 25 de setembro, em Manaus - AM

No Colégio das Dorotéias, Astrid Cabral era sempre solicitada a decorar poemas em louvor a Deus, a Maria e aos santos, para recitar nas festas religiosas. Brincava com os textos, modificando-os, trocando palavras. Daí a escrever seus próprios versos foi uma questão de tempo.  A poetisa cresceu na casa dos avós professores, tendo à mão clássicos das literaturas brasileira, portuguesa e francesa. Admirava vários autores, mas a grande paixão de sua infância foi Alice no país das maravilhas, de Lewis Carrol. No ginásio, deixou-se seduzir pelo verso livre modernista.

Aos 16 anos, Astrid já publicava artigos e crônicas em jornais de Manaus. Participou do Clube da Madrugada, movimento renovador da literatura amazonense dos anos 50. Foi para o Rio de Janeiro, em 1955, estudar Letras Neolatinas na Universidade do Brasil. Em 1962, começou a dar aulas na Universidade de Brasília, mas sua carreira de professora foi interrompida pelo golpe de 64. Em 1988, com a lei de anistia, seria reintegrada. Neste ínterim, dedicou-se à tradução e fez concurso para oficial de chancelaria do Ministério das Relações Exteriores (1968). Serviu na Embaixada no Líbano (1970-72) e no Consulado em Chicago (1986-91).

Casada com o poeta Afonso Felix de Sousa, Astrid Cabral só publicou seu primeiro livro, Ponto de luz, em 1979. Na década seguinte, ganharia vários prêmios literários com outros três livros. Lélia Coelho Frota apresenta a poetisa como "mestra em recortar fragmentos do cotidiano". Fausto Cunha observa que, "num país em que as mulheres estão produzindo excelente poesia, Astrid consegue destacar-se como uma das mais poderosas revelações destes últimos anos, por sua fala pessoall e sua temática às vezes crua e irônica."

A arte de Astrid está à margem de facções ou escolas literárias: não se vincula à Geração de 45, nem aos modernistas, tampouco aos concretistas. É uma poesia que, no dizer de Tenório Telles, "denuncia os descaminhos da modernidade nos trópicos, seu caráter desagregador e trágico". Para Astrid Cabral, a poesia é um testemunho da vida humana, de cada um e de todos: "Poesia é a palavra em apoteose, a linguagem verbal elevada à máxima potência, de som e significado."


"Escrever poemas foi um passo à frene no comecinho da adolescência. Era uma forma prazerosa de conversar comigo mesma. Sentia haver coisas tão íntimas que só podiam ser ditas em silêncio. Achava que os versos no papel eram o cofre perfeito para os segredos do coração."

                                                                                                                   Astrid Cabral

"Embora Astrid Cabral tenha nascido no estado do Amazonas, sua poesia nada tem de caudalosa ou fluvial: é contida, delicada, refinada - em suma, a poesia de uma artista do verso."
Lêdo Ivo


COMUNHÃO

Debulho feijões de corda
como quem debulha auroras.

As vagens entre meus dedos
outra falagens mais finas.

Terra sol chuvisco lua
no verde ambíguo distingo.

Sinto a seiva das neblinas
toco a saliva do orvalho.

Penso no abismo da ueda
entre paisagem e panela.

Caninos trincando auroras
antecipo a comunhão.


Obras da autora

POESIA: Ponto de cruz, 1979; Torna-viagem, 1981; Visgo da terra, 1986; Lição de Alice, 1986; 
Rês desgarrada, 1994; De déu em déu (poemas reunidos), 1998; Intramuros, 1998.

FICÇÃO: Alameda, 1963.

INFANTIL: Zé Pirulito, 1982.


Fonte: 100 Anos de Poesia - Um panorama da poesia brasileira no século XX - volume II - organização Claufe Rodrigues e Alexandra Maia - O Verso Edições - 2001 - Rio de Janeiro.


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