domingo, 10 de setembro de 2017

Guy de Maupassant

Guy de Maupassant

1850 - Em 5 de agosto, no Castelo de Miromesnil, Toyrville-sur-Arques, França, nasce Henry-René-Albert-Guy de Maupassant.
1856 - Nasce seu irmão Hervé.
1859 - Maupassant inicia os estudos no Liceu Imperial Napoleão de Paris.
1862 - Seus pais se separam.
1863 - Passa a estudar no Instituto Eclesiástico de Yvetot, de onde seria expulso.
1864-69 - Guy vai para Paris para estudar Direito.
1870-71 - Serve ao Exército na guerra franco-prussiana como voluntário.
1872-80 - Trabalha como funcionário dos Ministérios da Marinha e da Educação.
1880 - Publica o livro de poesias Os Versos e a antologia Os Serões de Médan, editada por Émile Zola.
1881 - Publica o primeiro o livro de contos, A Casa Tellier.
1882 - Publica Mademoiselle Fifi.
1883 - Nasce o primeiro filho, fruto do relacionamento com Joséphine Litzelmann.
            Publica Uma Vida.
1884 - Publica Miss Harriet, Clair de Lune e As Irmãs Rondoli.
1885 - Publica Contos do Dia e da Noite e o romance Bel-Ami.
            Começa a apresentar problemas de saúde.
1887 - Publica O Horla.
1888 - Publica Pedro e João.
1889 - Publica o romance Forte como a Morte.
            Morre Hervé, seu irmão.
1892 - Em 2 de janeiro, tenta o suicídio. É internado na clínica do dr. Esprit Blanche, em Paris.
1893 - Morre em 6 de julho, em Paris.

Com a Revolução Industrial, ocorrida na Europa ocidental em meados do século XIX, novas oportunidades para a força de trabalho na França foram criadas. Os camponeses trocaram as aldeias e vilarejos por cidades maiores, onde se tornaram parte da chamada "pequena-burguesia", caracterizada por um poder aquisitivo maior e pelo interesse na educação e na cultura.

Curiosamente, com a abolição da monarquia e o estabelecimento da República, em 1870, na França, a consciência das diferenças de classes sociais aumentou. No novo Estado, o dinheiro exercia maior influência do que a posição social herdada. A burguesia rica, portanto, passou a ser considerada a aristocracia.

Outra consequência significativa desse importante período de transformação da humanidade ocorreu no modo de trabalho dos artesãos, que se viram forçados a trocar seus ofícios pelo trabalho monótono porém mais produtivo nas grandes fábricas.

Foi nessa época, em 5 de agosto de 1850, que nasceu em Tourville-sur-Arques, no Sena Marítimo, região no noroeste da França, Henry-René-Albert-Guy de Maupassant, filho de Gustave Maupassant e de Laure Le Poittevin, que descendia de uma família de alta burguesia normanda.

Embora seus pais fossem abastados, Guy teve uma infância infeliz, marcada pelas constantes desavenças e discussões entre os pais - Gustave era um  homem dissoluto e violento, e Laure uma mulher prepotente e neurótica. Os pais se separaram em 1862, quando Guy estava com onze anos, e ele e o irmão, Hervé, seis anos mais novo, foram criados pela mãe dominadora, no Castelo de Miromesnil, na Normandia. Vivendo entre o mar e o campo, Guy cresceu amando a natureza e as atividades ao ar livre.

Adorava pescar, e anos mais tarde, em Paris, passaria horas e horas remando no rio Sena. Guy teve uma educação primorosa: sua mãe, mulher extremamente culta, infundiu-lhe uma formação humanista, o que despertou seu interesse pela literatura. Realizou os primeiros estudos no Liceu Imperial Napoleão de Paris, e aos treze anos foi enviado para o Instituto Eclesiástico de Yvetot. Muito apegado à vida familiar, não conseguiu ambientar-se no internato e foi expulso por insubordinação. A fase do seminário despertou-lhe um sentimento anti-religioso que perduraria pelo resto de sua vida. Depois estudou no Liceu de Rouen, onde se formou em 1869.

Estimulado pela mãe a dedicar-se à carreira literária, aos dezenove anos partiu para Paris. Como voluntário, serviu ao Exército na guerra franco-prussiana de 1870 a 1871, mas não participou dos combates. Entre 1872 e 1880 trabalhou como funcionário dos Ministérios da Marinha e da Instruçã Pública, levando nas horas de folga intensa vida boêmia.

O avô materno de Guy era padrinho do escritor e jornalista francê Gustave Flaubert - amigo de infância da mãe de Guy e que, por sua vez, tomou-o sob sua proteção e introduziu-o na sociedade literária da época. Flaubert empenhou-se em treinar Maupassant na arte de escrever ficção e ensinou-lhe os fundamentos da estética realista. Foi ele o responsável por desenvolver em Maupassant a capacidade aguda de observação e o equilíbrio e a precisão de estilo.

Por intermédio de Flaubert, Maupassant conheceu vários escritores famosos da França e de outros países, entre eles Ivan Turguêniev, Alphonse Daudet, Émile Zola e Henry James. Frequentava com eles as reuniões dominicais da elite literária de Flaubert, que representava o centro do pensamento europeu.

Em 1880, depois de colaborar em jornais parisienses, Maupassant publicou um pequeno volume de poesias dedicado a Flaubert - Os Versos. No mesmo ano, seu conto Bola de Sebo, publicado na antologia Os Serões de Médan, alcançou grande sucesso.

Em 1881 conheceu Frank Harris, que o descreveria com as seguintes palavras: "Maupassant não dava a impressão de ser um homem genial; de estatura média, era robusto e bonito. Tinha o rosto quadrado, o perfil grego, a mandíbula forte, os olhos azul-acinzentados, os cabelos e o bigode escuros, quase negros. Seus modos eram impecáveis, embora num primeiro momento parecesse sempre um pouco reservado, relutante em falar sobre si mesmo e sobre suas obras".

A primeira obra de Maupassant foi um livro de poesias, mas ele se tornou mais conhecido pelo brilhantismo de seus contos. A Casa Tellier, de 1881, atingiu doze edições em dois anos.

Com a publicação de Mademoiselle Fifi, ele se transformou repentinamente no escritor da moda. Pediu demissão do emprego público e passou a se dedicar exclusivamente às letras. Seguiu-se um período de dez anos de grande fecundidade, quando escreveu praticamente a maior parte de suas obras mais importantes, incluindo seis romances, cerca de trezentos contos, peças, livros de viagem e crônicas jornalísticas.

Em 1883 concluiu seu primeiro romance, Uma Vida, sobre a existência frustante de uma esposa normanda. Em meados de um ano foram vendidos 25 mil exemplares.

Nesse ano nasceu seu primeiro filho, fruto do relacionamento com Joséphine Litzelmann. Guy teria outros dois filhos com a jovem, porém nunca quis reconhecer a paternidade, embora jamais deixasse de se preocupar ocm o bem-estar deles e de atender a todas as suas necessidades.

Seu segundo romance, Bel-Ami, publicado em 1885, que retrata um jornalista inescrupuloso, teve 37 edições em quatro meses. Seu editor, Havard, deu a ele um contrato para escrever novas obra-primas, e em muito esforço Guy criou obras de extraordinário estilo e profundidade.

A partir de 1885, no auge de sua expansão criadora, começou a sentir os sintomas da doença mental que terminaria por matá-lo. Acreditando que a cura para os seus males estivesse nas drogas, passou a viver um inferno particular, marcado por alucinações, obsessão por doenças e pela morte. Seus últimos contos são inspirados na idéia fixa de suicídio, na obsessão pelo invisível, pela angústia. O pessimismo, a hostilidade e a solidão lhe inspiraram fantasias que estão presentes em O Medo.

A história de horror mais perturbadora de Maupassant, O Horla, de 1887, é sobre loucura e suicídio. No ano seguinte Maupassant escreveu o que muitos consideram seu melhor trabalho - Pedro e João, um estudo psicológico de dois irmãos. O romance foi considerado imoral, uma vez que o herói se sai bem praticando o mal.

Com a aversão natural pela sociedade, Maupassant apreciava o isolamento, a solidão e a meditação. O êxito obtido com suas primeiras obras permitiu-lhe não só levar uma vida confortável como também realizar seus sonhos: o luxo, a inesgotável atividade amorosa, as longas e solitárias viagens pelo mar em seu iate Bel-Ami e o ingresso na sociedade de Cannes e de Paris, onde ganhou fama de sedutor inveterado. O sucesso financeiro permitiu-lhe, também, adquirir uma garçonnière - local destinado especialmente a encontros amorosos clandestinos -, um apartamento em Paris, uma casa de campo em Etretat e duas residências de veraneio na Costa Azul.

Curiosamente era mais orgulhoso de suas conquistas amorosas do que de suas obras literárias. Conheceu a Argélia, a Itália, a Inglaterra, a Sicília, e a cada viagem um novo livro era escrito. Toda essa atividade não o impediu de fazer amizade com as maiores celebridades literárias de seu tempo: Alexandre Dumas, filho, tinha por ele uma afeição paternal; em Aix-les-Bains Guy de Maupassant conheceu o filósofo e historiador Hippolyte-Adolphe Taine, a quem cativou de imediato. Sua amizade com Edmond e Jules Goncourt não durou muito; sua natureza franca e prática reagiu contra o clima de bisbilhotice, escândalo, duplicidade e criticismo que os dois irmãos criaram ao seu redor.

Guy abominava a comédia humana, a farsa social.

Duas das principais características de Maupassant são a economia de detalhes e a ausência de julgamento moral. Os contos de Maupassant são concisos: embora suas descrições sejam específicas, não há palavras supérfluas; cada uma delas é cuidadosamente utilizada para sugerir o melhor significado possível. Maupassant não fazia comentários sobre seus personagens ou sobre suas ações. Ao contrário da maioria dos escritores, especialmente de sua época, Maupassant não elogiava nem criticava seus personagens. Era objetivo e permitia que os personagens revelassem sua natureza e personalidade através de suas próprias palavras e ações.

Os personagens de Maupassant geralmente são vítimas infelizes da ganância, do desejo ou do orgulho. Suas obras mostram o realismo da crueldade entre os seres humanos, bem como as dificuldades de relacionamento familiar e as ironias da vida. Com relação às mulheres, ele era particularmente impiedoso. Raramente um personagem feminino é digno de admiração.

Ao contrário de Zola, obra de Maupassant não pretende ter alguma fundamentação teórica ou filosófica. Ele se limita a analisar a superfície dos fatos exteriores, e o que resulta dessa análise, por trás da ironia, é uma profunda amargura com a obstinação, a avareza e a estupidez de seus personagens. Por outro lado, suas obras são quase todas pessimistas; mesmo em suas páginas mais sensuais há um clima de grande melancolia.

Guy de Maupassant influenciaria grandes mestres do conto, entre os quais William Somerset Maugham e O. Henry.

Seu estilo de vida dissoluto e o excesso de trabalho e esforço mental contribuíram para enfraquecer sua saúde. Aos 37 anos teve complicações por sífilis, doença congênita de que ele e seu irmão eram vítimas e que levaria Hervé à morte em 1889. Passou a ter recorrentes problemas de visão, e suas faculdades mentais começaram a falhar aos quarenta anos, levando-o à demência.

Os críticos acompanharam a evolução da doença mental de Maupassant através de suas histórias semi-auto-biográficas, com temas psicológicos, algumas das quais podem ser comparadas às visões sobrenaturais de Edgar Allan Poe.

Em toda sua obra Maupassant permaneceu fiel ao ideal de simplicidade e clareza, traduzido por uma linguagem límpida e segura. Seus contos, envolvidos pela atmosfera de pessimismo, paixões, infelicidades e sensualidade, revelam uma grande paixão pela humanidade. A passagem para o romance obrigou-o a depurar e a aprofundar o perfil psicológico de seus personagens, a fim de construir o que denominou "os capítulos do sentimento". Entre seus trabalhos - a maioria deles inspirados em sua experiência pessoal de vida, suas observações de infância e adolescência, sua vida de burocrata e os longos passeios de barco a remo pelo Sena - destacam-se os contos de Mademoiselle Fifi 91882), Clair de Lune (1884), Contos do Dia e da Noite (1885) e os romances Uma Vida (1883), Bel-Ami (1885) e Forte como a Morte (1889).

Nos últimos anos de vida Maupassant desenvolveu um gosto exagerado pela solidão e um constante medo da morte e mania de perseguição. No dia 2 de janeiro de 1892 fez três tentativas de suicídio, cortando a garganta. Foi internado pelos amigos na clínica do doutor Esprit Blanche, em Passy, Paris. Ali passou dezoito meses praticamente inconsciente a maior parte do tempo, embora tivesse ocasionais crises de violência que obrigavam os enfermeiros a colocá-lo em camisa-de-força.

Guy de Maupassant morreu no dia 6 de julho de 1893, aos 43 anos de idade, e foi sepultado no Cemitério de Montparnasse, em Paris.


Fonte: coleção obras-primas - grandes autores - vida e obra.



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